- Tenho certeza de que daqui a cem anos estudarão John de Mol como o maior artista de nossa época - disse ela, cheia das certezas de seus vinte anos, retrucando um rapaz bêbado, sentado do outro lado da mesa, metido a intelectual, que afirmou serem idiotas os que participam tanto quanto os que assistem a programas como Big Brother.
Ela gostava de expressões como "proletarização do homem moderno" e "diferentes planos de recepção e valorização da arte," chupitadas de algum Benjamin, que ela falava com propriedade, sacudindo os cabelos ruivos e terminando seu chope antes que esquentasse.
No verão carioca, o chope esquenta muito rápido.
Até então, ele pouco falara.
- A arte é essencialmente uma experiência estética do espectador, que revela o artista e, em segundo plano, sua mensagem (ou ausência de).
Sua declaração caíra como uma bomba. Isso era exatamente o que Benjamin chamava de Fascismo, o culto à estética em detrimento da politização das massas. O comunismo respondia com a politização das massas.
Se o Big Brother alienava as massas, isso era outra questão, a ser discutidas pelos filósofos e sociólogos, que nunca chegaram perto de compreender a experiência artística. Arte é objeto de artistas. Oscar Wilde, por exemplo, muito mais que Benjamin. O que há é que por trás dos formatos de reality shows não havia um homo ars se expressando.
O assunto seguia tenso, pontuado por reflexões e incompreensões e concordâncias pontuais. O álcool que refrigerava o corpo fazia ferver as mentes.
- Mas sem senso crítico é impossível considerar propriamente o que quer que seja!
E ele discordava: crítico é o de menos. Há outros sensos, outras sensibilidades (ai, Fanny Dashwood) envolvidos, e para ele o central era a experiência estética. Pouco importa a razão quando pode haver tantos níveis pré-expressivos envolvidos na percepção de uma obra de arte.
Pouco se lembravam do que foi discutido quando pediram a conta e saíram do bar caminhando, lambidos pelo vento da preamar naquela noite quente. Ela pensava que a discussão poderia ter sido mais profunda, ele temia que o excesso de razão prática pudesse interferir na inspiração - por vezes mercadológica - que, como quer que fosse, lhe pagava as contas.
Mas compreendia muito bem que o fascínio lançado pelo comunismo sobre os adolescentes se comutava na admiração pelos frankfurtianos no começo da vida adulta. Ele também fora assim.